
Do Sertão para o Pódio: A Trajetória de Núbia de Oliveira, a Brasileira que Devolveu a Esperança na São Silvestre
No universo das corridas de rua, poucas histórias são tão genuínas quanto a de Núbia de Oliveira (Instagram: @nubia.atleta). Enquanto o mundo do atletismo debate a tecnologia das placas de carbono e os centros de treinamento milionários, a nova estrela do fundismo brasileiro foi forjada no "pó de brita" e nas ladeiras do interior da Bahia. Terceira colocada na 99ª Corrida Internacional de São Silvestre, em 2024, Núbia não apenas subiu ao pódio: ela recolocou o Brasil no mapa da elite e provou que o sertão é, sim, uma fábrica de campeões.
O Brilho na Paulista
A manhã de 31 de dezembro de 2024 ficou marcada na memória dos torcedores. O Brasil amargava um jejum de protagonistas no pelotão de frente, dominado pela hegemonia queniana. Foi quando Núbia (Instagram: @nubia.atleta), então com 22 anos, decidiu que não seria apenas uma coadjuvante na subida da Brigadeiro Luís Antônio.
Com uma estratégia de paciência e um sprint final avassalador, a baiana ultrapassou a tanzaniana Anastazia Dolomongo nos metros finais da Avenida Paulista. O relógio travou em 53min24s. À sua frente, apenas as quenianas Agnes Keino e Cynthia Chemweno.
"Fui terceira colocada, mas saí de lá grande e campeã, com gostinho de primeiro lugar", disse Núbia após a prova. Aquele bronze teve peso de ouro: foi a melhor colocação de uma brasileira na prova em anos, quebrando a barreira africana e devolvendo a crença de que é possível vencer em casa.
De Campo Formoso para o Mundo
A história de Núbia começa longe dos holofotes, em Campo Formoso e no distrito de Flamengo, em Jaguarari (BA). Sua descoberta foi quase um acidente do destino. Nos Jogos Escolares de 2016, aos 14 anos, seu professor a inscreveu em quatro provas totalmente diferentes: salto em distância, 100m rasos, 1.500m e 3.000m. Contrariando a lógica fisiológica, ela venceu todas.
Foi esse talento bruto que chamou a atenção de Antônio Ferreira, o "Professor Ferreirinha", lenda local e treinador da Escolinha de Atletismo Flamengo. Ele viu nela o que as planilhas não mostram: a "raça". Núbia começou treinando sozinha, sem GPS e sem frescura, aprendendo a ouvir o próprio corpo nas estradas de terra do sertão.
Treino "Raiz" e Altitude
O segredo da performance de Núbia na São Silvestre e na temporada de 2024/2025 não é segredo para ninguém em Jaguarari: altitude e trabalho duro. A atleta realiza seus treinos na Serra dos Morgados, acima de 1.000 metros de altitude. Essa preparação "em casa" garante a ela uma capacidade cardiorrespiratória diferenciada quando desce para competir ao nível do mar.
Sua rotina é espartana: treinos em dois períodos, às 5h da manhã e às 16h30, fugindo do sol escaldante da caatinga, mas usando o calor a seu favor para ganhar resistência.
2025: O Ano da Confirmação
Se 2024 foi o ano da revelação com o pódio na São Silvestre, 2025 foi o ano da consolidação absoluta. Núbia provou que não é atleta de uma prova só. Confira o "estrago" que ela fez na temporada recente:
Quebra de Tabu na Dez Milhas Garoto: Em setembro de 2025, Núbia venceu a tradicional Dez Milhas Garoto, no Espírito Santo. Ela quebrou um jejum de 18 anos sem vitórias brasileiras na prova, superando as africanas com seu característico sprint final.
Rainha das Pistas: No Troféu Brasil de Atletismo de 2025, ela fez a "dobradinha", conquistando o ouro tanto nos 5.000m quanto nos 10.000m, batendo recordes pessoais.
Velocidade na Meia: Venceu a Asics Golden Run 21k e foi a melhor brasileira (2º lugar geral) na Venus Half Marathon, terminando em 1h14min.
Foto: Gustavo Alves / CBAt (Instagram: @ggustavo_alvess)
O Futuro é Logo Ali
Com o ciclo olímpico visando Los Angeles 2028 no horizonte, Núbia de Oliveira já deixou de ser promessa. Hoje, ela é a realidade do fundismo nacional. Sua trajetória nos ensina que, mesmo sem a estrutura dos grandes centros, o talento lapidado com disciplina pode encarar as potências mundiais de igual para igual.
Para a 100ª São Silvestre (em 2025), a mensagem da baiana é clara: "Agora os brasileiros podem sonhar em vencer". E se depender da força que vem de Campo Formoso, esse sonho está cada vez mais perto da linha de chegada.
